segunda-feira, 13 de junho de 2016

Keep on paddling, Jim.

O bote de madeira balançava, entre idas e vindas da leve correnteza. Até certa altura, fortemente; pois a maré lutou brevemente contra aquelas madeiras mal pregadas. Afinal, era um rio salgado e mais à frente havia o seu irmão mais velho, o Atlântico. Xingou baixinho os pregos tortos que reforçavam o marceneiro bêbado que ele era.

Jim se lembrou.

De todos os antigos colegas de serviço que vieram e foram daquela pequena cidade de interior; todos eles se fecharam em quentes e aconchegantes conchas, onde ao invés de enaltecer grandiosas experiências que tais mesmos eram, se fechavam por ego, medo ou supostas precauções.

E a concha não era aquilo que Jim buscava encontrar no fundo daquele rio. O peixe grande come o peixe pequeno mas ele continuava remando.
O lúgubre luar banhava as úmidas tábuas compactas que empurrara o bote até ali e ele pensava que tudo se encontrava nas mãos dele. Jim parou e contemplou um pouco da paisagem que havia ao seu redor.

Jim se distraiu.

A relva se iniciava na área com terra mais próxima, e ia se estendendo até a mata alta, o tipo que você se perderia num horário como esse, e as sombras que ondulavam sobre um luar minguante tiraram a atenção do pescador por uns bons e longos minutos.

Seu rosto se contorcia entre emoções distintas e diferentes enquanto jogava as memórias importantes no úmido esquecimento. Aquela no parque. Aquela no museu. Aquela... Com aquele. Tocou a água morna do outono com a ponta dos dedos, e as fotos iam flutuando para o distante.

"Definitivamente melhor do que cânhamo envolvendo o meu pescoço." Pensou, enquanto ia se preparando para o último mergulho.

Enquanto Jim se curvou, notou uma figura bonita na luz branca, pequena e graciosa. Era um filhote de cisne, empurrando suas miúdas asas em formação, longe de seu ninho. Mesmo não se arriscando a ir muito longe da terra, Jim parou.

A ave engolia o seu olhar austero.
E Jim sentiu uma felicidade abrupta.

Após alguns segundos, aos quais pareceram horas, ele se cansou e rumou de onde supostamente tinha vindo. Ouviu um farfalhar na curva que o rio fazia, o que Jim deduziu ser o pequenino chegando em terra. Era algo tão puro, inocente e viveria batendo suas asas desse jeitinho elegante até o fim de sua vida.

Jim finalmente compreendeu-se. Ele remava e pescava, porém atrás de peixes errados; errando constantemente sua verdadeira direção e foco. Conforme ia para casa, fez a conclusão.

Jim remou.

"Sou um felizardo, pois não será em todas as vidas que aparecerão cisnes para lembrar àqueles que se perderam. Lembrar o quê?
Ora, eu nem mesmo sei.
Mas no fundo, aquele pequenino foi como eu."

Jim franziu o cenho.

"Se sentiu só após nadar sozinho. Sentiu-se frágil e vulnerável, mas a inocência e a felicidade fez com que voltasse ao seu devido ninho, batendo os pés. Ou no caso dele, patas."

"Ele me lembrou que somos todos ingênuos, mas há esperança se reencontrarmos o ninho. Um brinde aos cisnes, e por mais águas tempestuosas." Pensou. E  ergueu a garrafa vazia à lua.

Jim sorriu.

Gus Van Sant

E o narrador também.

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