autor: Ayrtton Fonseca autor: Bárbara Tanaka autor: Giovana Anschau autor: João Basso
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terça-feira, 17 de maio de 2016

Re: com amor,

(...) com o mesmo amor pelo qual palavras mancharam as paredes, tudo foi feito de memória. poderia tatear as paredes do corpo procurando runas antigas, mas o mapa se encontrava sempre absurdamente intangível: o ato de inocular a coisa viva em corpos celestes bagunçava o amor por toda a casa. a casa, permita-me dizer – nunca passou do deleite da psique na forma palpável de aromas inebriantes. arriscaria dizer que seria a tua mistura de cigarros, orgasmos e perfumes de estante. o brilho da intimidade que me faz reconhecer tua pele em braille mesmo depois da completa revitalização das células em sete anos. por pouco era pouco.

a longevidade era pouca. na maior parte do tempo, só deixaria as coisas ternas; ali, grampeadas em arquivo de sopro vital, de fracassos do coração. mas enganar quem? nem após um século de destroços eu entenderia o que aconteceu naquele outono.

 um dia, quem sabe,                                    
                 
(sempre com amor)
ao amor.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

[à] beira-[mar]

tempos de cólera –
no descompasso da onda
azul-verde-água
mergulhou no tsunami,
por pouco se salvou da tempestade
abrigo na brisa leve do dia
:
correu para o rasinho
voltou a ser criança de novo
molha! os pés na água
e percorre as curvas da estrada
para o nosso lar
da espera, tortura do tumulto
:
só um pouco de paz
no relento de um beijo extinto
[ pois era breve, ]
uma quinta de onda baixinha
se acomoda à beira-mar.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Are you getting better? (at pretending you're ok)

Num momento como esse, passaríamos horas falando sobre como a névoa que paira o mundo anda pesada. É densa, de um cinza feio e que pouco se importa com os ataques de tosse e asma. Te sufoca. Faz questão de não te deixar respirar em meio a tempestades de fuligem e erupção. Juro que é quase uma crosta grossa, que você vai apalpando como se estivesse tentando encontrar um caminho pelas paredes. Não sei. Não é algo que se dissolve conforme você se aproxima. Mas parece pó.

Aí é que você me pergunta o que é que a gente faz. Eu paro por alguns segundos, olhando para um ponto fixo qualquer. Não encontro resposta. Olho de novo pra você, com aquele mesmo olhar que há dias você vem conhecendo, mesmo sem querer. Você continua machucado e eu sem curativos. Neste mesmo curto-circuito, eu compreendo perfeitamente o que você está pensando. Acho que você também me entendeu. Não sei se é a verdadeira semiótica, muito menos se há algo de intrínseco naquela besteira toda. Mas é aquilo; você procura contato humano e eu tô sempre ali, prestes a te aceitar com o que você tiver a me oferecer. 

Quem sabe a gente consiga refletir um pouco de luz.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Tonight we dance

It was the most boring moment in my entire life. The teacher didn't end the class even if it passed thirty minutes over the time. The rain fell outside. It was strong a lot.
"you guys can go now and a big hug"
I didn't know how to run to pick a bus in such rain. I stopped at the door of the building. I was looking at the rain, the cars, people running, it was some kind of funny. Then I saw her.
Some happy asian eyes with a monster hair. We exchanged smiles. The invitation appeared in a few seconds. When I entered the car, I was a little bit wet.
"hi, thanks for this"
"oh, nothing. the traffic is horrible, do you mind sleeping at my house? my parents are traveling, by the way"
"no, no, it's okay"
The car was an embarrassing moment. I was very thankful for the ride, but I didn't know how to act regarding sleeping at her place alone. She was smiling. I looked into it. There was a lot of life. I turned on the radio and it was playing shitty music, so I tried to change and I found a station which was playing Singin' In The Rain. We laughed about the rain thing.
We stopped at some fastfood restaurant, we were both hungry. I lost the embarrassed feeling and we talked about everything. We knew each other from a party and from common friends, but never talked to each other directly, actually. I felt attracted to her a little bit.
When we got inside her building, we needed to walk on a corridor without a roof. An idea appeared in my mind at this moment.
"i have an idea, do you care about being without your shoes and remove your tights for a moment? i know it's weird but my idea is really cool"
She was a little bit shy about what I asked, but she took them off and gave me them.
"wait"
I ran to the other side with my backpack, her tights and shoes, I removed mine too and took it to a safe place and ran to her, again.
"i had an idea when i connected to the Singing In The Rain song and saw this, can we dance in the rain?" 
She gave me her hand and smiled.
We became wet really fast. But we were happy. We danced and I was really bad at dancing. But it didn't matter. If someone saw us doing that, I guess that person would think we were both retards. Nietzsche has said something about it one day: "and those who were seen dancing were thought to be insane by those who could not hear the music".
I didn't know what was happening, but I was happy.
We stopped. We looked into each other's eyes. We smiled (again).
Then, we kissed. I felt like our universes were dancing. I had a lot of butterflies in my stomach.
I was in love.

sábado, 4 de outubro de 2014

Palavras cruzadas

Lá estava ela. Sentada na segunda carteira da quinta fileira da esquerda para a direita, ambiente altamente ventilado, iluminação com perfeito enquadramento. Rapazes tolos à sua volta, brisa fresca, distância focal do professor. Pode ser vista de qualquer ângulo da sala, mas nenhum lugar era melhor do que o meu. Vejo seus sapatinhos azul marinho, de veludo; circundam seus pés de maneira delicada e cinderelesca. Será que o segundo artelho é maior do que o primeiro? Será que ela já fez balé e seus dedos são tortos como os meus dentes? Não importa. Só não eram mais bonitos do que a meia branca sete oitavos, que escondem as pernas torneadas como se fossem local proibido. Ah, aquelas pernas... Local proibido seria se ali houvesse cinta-liga e uma dose de espasmos. Subo um pouco mais e deslizo pelas pregas daquela saia. Me vejo segurando o que há por baixo dela, enquanto me viro ao desabotoar por trás  a camisa branca para sentir os seios pequeninos e infantos se enrijecerem com o toque de uma mão cheia de calos e vertigens eróticas. O toque é cessado após trilhar caminhos perigosos, naturalistas; percorro suas costas pálidas bem no meio de um suspiro. Observo seus ombros a uma distância atômica de meus lábios. Toco as sardas e ecoa um arrepio como instrumento musical; a resposta doce de um Miss Dior Eau de Toilette provoca minhas entranhas em um gesto lúdico. Posiciono minhas mãos sobre seus ombros e os vejo relaxar diante da massagem dionisíaca – balança o cabelo castanho amarrado por um laço vermelho. O cacho que se forma no caminho da nuca não consegue ser preso pelo laço; beijo a pintinha no lado esquerdo do pescoço e ouço a risadinha penetrar na minha alma.

"Você não passa de um garoto."

Ela não se vira, tampouco se direciona aos meus olhos. O professor volta a sua atenção a mim, e eu não volto a fitá-lo – mas volto ao meu rabisco fracassado, com traços sujos de excesso de tinta azul, deturpando o corpo dela. Pego novamente a caneta e imito o desleixo das madeixas, ajeitadas pelas mãos delicadas. 

Não enxergo se as unhas estão feitas ou não. Haja amor para imaginá-las tocando o meu rosto, a barba mal feita, as espinhas engraçadas. Mas não sei. Ela não parece ser o tipo de garota que precisa dessas coisas.