quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Caffè latte

I.
da última vez nós procuramos abrigo debaixo do comércio fechado.
o senhor da loja de conveniências havia nos expulsado
de novo, mesmo com o mundo caindo lá fora,
sem compaixão alguma ao ver dois jovens trocando carícias
no finzinho do corredor.
– ah, que mal tem?
– aqui não. ele vai ver.
e viu.

II.
corremos de todos os males fantasmagóricos
para atravessar poças e
contornar a sombra dos prédios.
você não me pagou um café, é claro,
mas eu fui feliz ao pegar a sua mão
mesmo com o cheiro de homicídio e pólvora
pairando a cidade.

(e do pouco de consolo que restou,
eu já sabia,
o amor era sexualmente transmissível.)

de resto era infinitude, era sorriso exausto.
– mesmo assim?
– é que isso sempre acaba matando a gente.

III.
hoje você abriu o guarda-chuva.
ainda segurou a minha mão, sempre mais gelada que a sua
mas sempre cúmplice daquilo que queria ser visto.
– sabia que cheiro de chuva é bactéria?
– é?
– é. acho que tô ficando doente. é melhor voltarmos pra casa, viu...

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