terça-feira, 7 de abril de 2015

Ávida avenida e bairro e redondeza e eixo e asa

Ele olha de um lado para o outro antes de atravessar a rua. Sabe que a via é de mão única, mas nunca lhe custava nada. Não vai tropeçar em seus próprios pés, porque os cadarços estão sempre perfeitamente amarrados, em dois firmes laços. Mesmo assim, atravessa olhando para o chão, notando cada imperfeição do pavimento que poderia trincar com o peso dos automóveis. Observa um panfleto voando e não sabe se pega ou deixa a poluição se espalhar pelo mundo. Ele apressa o passo horizontalmente e alcança o letreiro em forma de papel. É de uma loja de cortinas qualquer. E anda um pouco mais. Acaba de lembrar de como ela gosta das cortinas perfeitamente arrumadas. Assim, alinhadas, muito bem desenhadas, mesmo que de um jeito um tanto desajeitado. Está frio e o vento assopra o casaco dos pedestres. Sabe que é hora de fechar as cortinas, e por isso guarda o panfleto no bolso esquerdo. Todos já estão procurando lojas como abrigo, mesmo sabendo que vão sair sem comprar nada. Vê crianças pintando o sete enquanto fogem do cuidado excessivo de suas mães, que correm segurando toucas e suéteres. E vê pessoas segurando bolsas e copos de café, enquanto querem segurar a mão de outro alguém. Mas está tudo bem. São só crianças. 

Já faz um tempo que não sabe mais o que é saudade. Ele olha de um lado para o outro antes de atravessar a rua. Pensa em voltar. Nunca lhe custava nada, mas sabe que aquela via é, por vezes, de mão única, e ainda assim poderia tropeçar.

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