terça-feira, 29 de março de 2016

Circular Centro 001

o motorista parou onde o mundo costuma sempre girar
(sem pensar duas vezes em imprimir as horas no pulso esquerdo)
– por ora era só fôlego pelo que ainda estaria por vir
por isso deixou a sombra descansar naquele mesmo ponto contínuo
por onde as folhas surrupiavam através dos calmos reflexos do homem laranja.
da brisa infindável, a mesma moça do agasalho amarelo se acomoda
no mesmo assento que porta a segunda fileira à direita
sem se incomodar em colocar a bolsa no chão, pois a sujeira sinestésica
estava apenas nas migalhas de olhares pútridos que projetam-se
nas tristes janelas trincadas, manchadas pelos mais expressos desamores.
na cidade feia, essa do céu feito de edifícios – o que restaria
senão os letreiros radioativos e a chuva que escorre saudade?

pontual. sete minutos em marcha à ré.
lá do horizonte de eventos se avistava o próximo maquinário
e o motorista dirige de volta para casa em tom solitário,
tocando o mesmo trajeto centrífugo de estação em estação
com as miudezas da mesma moça do agasalho amarelo.

das mesmas folhas varridas pelo tempo do homem laranja, comove-se o som:
circular, o maquinário estaciona; abrem-se as portas à espera da velha partida.

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