autor: Ayrtton Fonseca autor: Bárbara Tanaka autor: Giovana Anschau autor: João Basso
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sábado, 11 de julho de 2015

Ponteiro

Longe de ser Alzheimer, minha memória é calendário;
dos poucos dias que passam, me arrasta espalhando sangue
pelo chão como feridas abertas, tragédias hemorrágicas
e taquicardias sonolentas no decorrer das horas frágeis.
A cada "que dia é hoje?" há um revirar de olhos e duas mordidas
nos lábios, resistindo no desmanchar de todos os órgãos internos
e mergulhando num turbilhão de elementos que não sei se vivi
aqui ou senti em sonho comovido pelo refluxo do tempo.
Queria enxergar o espaço como a grande Persistência da Memória,
recriando um quadro cubista com elefantes longos e a lembrança
da luz refletindo nos ombros de menino naquela tarde de quarta-feira.
Hoje, por mais que eu raciocine através de inúmeros fractais e
algoritmos inerentemente humanos, ainda me bagunçam os ponteiros
que acionam a meia-noite e me vêm aqui a necessidade de conserto
e a imagem rápida daquilo que chamam de passado.
Nada desse porte me atormenta; mas há sempre aquilo encoberto
e separado por marcas d'água feitas de tempo, de páginas
do calendário que você sempre esquece de trocar.
Por pouco não sou consumida pela voracidade do acaso ou do
déjà vu. E assim acompanho o andar lúdico de um carrossel;
aqui estamos, e aqui nos arremessamos ao cais e ao cavalgar do tempo.