autor: Ayrtton Fonseca autor: Bárbara Tanaka autor: Giovana Anschau autor: João Basso

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Para além do Capital

                Acordei estranho. Limpando o ranho, no meio do banho, pensando num concurso. Talvez intercâmbio. Encontro um caderno antigo, mofado mas não menos importante e recheado de história. Bê conta sobre a irmã mais nova. Ayrtton gira em torno de pronomes ocultos femininos, já João reflete nos arredores da temporada final de Sense 8.
                Lavei a louça, pendurei a roupa e vi tudo bagunçado. Nada deixa o homem mais doente do que o abandono dos parentes, ponderei. É engraçado. O que nos torna pequenos é não ver que a vida é feita de planos errados. O café que compartilhei com a minha silhueta veio amargo e requentado, e as lúgubres memórias que vieram precisavam ser escritas.
                Num ano, fui tudo. Fui maloqueiro, estudioso, romântico, frio, solitário, popular e até preso. Isso me arrastou até a conclusão que o inexplicável é vendido no mercadão moderno; felicidade em falta, amizade em liquidação e a maior cotação é um abraço. 
                O fato de tudo estar parecendo promissor (apesar de melancólico) me impede de lacrimejar, percebo. Corto relações mais rápido do que corto cebolas ou bolas no vôlei. Eu deveria fazer algo, dar uma lida. Esqueçam esse garoto nas ruas da babilônia perdida.


Olho pro alto enquanto caio  
atingido por um raio 
num dia chuvoso 
abro os olhos, ainda estou vivo 
levanto e me reativo 
encaro: o ciclo venenoso.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Castelos e Ruínas

Penso que o que me falta (de vez em quando) é um pouco de inocência.

Se eu não fosse tão ciente de tudo, talvez já tivesse mais progresso. Hábitos e histórico me fizeram um homem sábio, mas os vícios não me dão espaço pro inteligente. Eu sei do provável, eu sei do difícil, sei do certo e sei do errado. Não faço nada, tento muito. Sou tudo, sou nada.

Sou grande, sou pequeno, sou o inocente em cima do muro.
Sou rico, sou pobre; sou camponês, sou nobre.
O chão de dinheiro, que forre. Sou ouro e cobre.

E ciente de tudo, sei que é o progresso. Evolução mental, melhoria de palavras e novas roupas, velhos amigos e novas pessoas. Várias tentativas, poucos sucessos, seguido de filosofia e alguns retrocessos. 

Avanço e me canso, prossigo e me deito; suspiro e penso (a meu respeito)
Será que alcanço? Sorrio em meio ao que miro; tenso.

é singelo o dia, e a noite; puída.
ciente de você, ambição
meu castelo, minha ruína.

quinta-feira, 9 de março de 2017

suas pernas foram feitas para correr,
e hoje,
eu só te vejo parada.

eu também parei
hoje eu estou estático
eu vejo o vazio nessas folhas, no horizonte, na sua foto, no reflexo na janela.

minha cabeça está baixa,
com o cabelo e a roupa molhada,
eu bato à porta.

meu corpo todo está molhado,
junto com essa rosa que tentei proteger,
desculpa, meu amor, mas no verão sempre chove.

eu só ouço silêncio,
silêncio,
silêncio.

somente silêncio.

viro as costas e corro,
corro,
corro.

a respiração ofegante,
a chuva em contato com a pele,
a rosa no lixo.

somente silêncio.
somente,
silêncio.

silêncio.

prometo a ti: nunca mais pararei de correr,
desculpa, meu amor, mas no verão sempre chove

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

a criança do parquinho

Aí está você, puros dentes brancos
dando-me alívio entre declives e barrancos
o seu branco me é uma bronca --- e comigo brinca
dos movimentos: que sinta. (sinta mesmo) Os bruscos brotam brilhos.
a seguro em meus braços, em pleno breu
(...)

Hei de ser, houve e foi
haveremos de compreender
você saberia o que dizer.

Eu caminho no condomínio
crianças no parquinho
crentes de diversão
algumas sem um colinho

Eu olho o relógio e
já passou muito do horário
éramos junção e crase
mesmo sem um dicionário

(Maldita dor que nos assola,
maldita dor que nos aguarda)

Fico sem graça, reflito:
dou risada. (muitas)
saio ao caminho
lembro do abraço;
lembro do carinho.

Era domo, era eu
era dominho
sempre deixava claro que
eu era seu irmãozinho

Vou-me embora um tempinho
deixe-me aqui no canto, quietinho
pois eu sem você
sou a criança sem parquinho.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A bola que você pisa sempre

A BOLA QUE VOCÊ PISA SEMPRE



O Pê tava quebrando a quarta parede comigo hoje. Me perguntando se tem uma bola que eu piso sempre. Você, leitor, tem? Tipo um erro que eu provavelmente gosto de cometer. E tenho sim, e muito provavelmente você também. Leves atrasos para os nossos focos principais. Distrações irrelevantes 
que nos tiram do caminho.


Eu tô com a mesma dúvida que ele teve ano passado, se eu tenho permissão de escrever textos desnecessários de reflexões fúteis que parecem coisas bonitas com as palavras encaixadas corretamente, mas acho que isso tudo é o cubículo em que o passarinho come alpiste. Há quem diga que se for uma gaiola na beira do Macchu Picchu, a paisagem vai presentear ao infeliz canário o sabor que ele procurava. Tipo quando você tá rodeado de parentes comentando sobre temperatura e o último jogão do domingo mas o teu celular te dá o ambiente desejado. Macchu Picchu.


 Tudo é a nossa volta, penso eu. Ele diria um ''tudo é a nossa volta, bicho''. E é assim mesmo. Nossa vida é o tempero, não o conteúdo. E agora eu vou misturar gastronomia pra você entender a analogia. E acho que é uma parte na escrita que eu herdei dele. Mas pensa bem: você não come o arroz e feijão sem sal, você come o temperado; e se tiver algo a mais, melhor ainda.


É bem aquela cena do Mr. Robot mesmo, acho que o melhor palpite é que a gente quer ficar sedado boa parte do tempo, pra lidar com o dever, sonho ou necessidade depois. Depois de um bom episódio de alguma série qualquer.


Ele tava sempre em confronto nesse quesito. Consigo mesmo. E me relacionei com pessoas assim também, mesmo que não tenha conseguido resolver eu entendi que a importância não é o tempero da comida. Sim absorver o que ela tem de qualidade.

Em resumo, tô tentando explicar que não como comida com sal.

 e isso eu não aprendi sozinho.


Isso eu aprendi com a décima sexta letra do alfabeto.

sábado, 22 de outubro de 2016

irmão de outra mãe

Essa literatura da vez é pra você, Alison.
Só mais uma. O meu eterno exemplo.

Isso sempre se aplicou a todos os meus problemas, todos os meus momentos da vida, mesmo que ingênuos ou simples comparados aos de hoje em dia (vide treze anos para cá). Seja com o controle de raiva, seja com a simples necessidade de ter alguém, antes de tudo existiu ele.

Momentos como aqueles que você troca olhares com o espelho, passa horas a fio quebrando o silêncio apenas com o murmúrio dos pensamentos, seja refletindo em coisas boas ou negativas, lucros ou prejuízos; momentos que a solidão deixa de ser um problema e alcança o estado de virtude.

E cá estou eu no melhor exemplo disso: intercalando entre o futuro, passado e uma xícara de chá gelado, não sei se prefiro boas memórias ou bons sonhos, mas sou grato a ambos pois eles me lembram a estrada que venho caminhando, o caráter que vem sendo formado, dias que são contados mas a gente gosta de ver o relógio indo bem devagar.

Momentos como esses que raramente nos são proporcionados mas nos fazem esquecer perguntas mais importantes sobre a vida, dúvidas de como seria possível a criança que puxava o vestido da mãe pra pedir um picolé estar escrevendo esse texto, momentos que nos fazem perceber que pra falar a verdade, nada a não ser o momento, importa.

E momentos como esses são momentos a serem relembrados.

Eu espero que você, caro leitor, entre essas ruas, becos e vielas de nostalgia possua alguém que por ele(a) sua pupila dilate, e ele foi a minha primeira lição sobre amar alguém. O amor dos pais vem da criação, o amor sexual tem o seu empurrão físico, mas a forma de amor de uma pessoa estender a mão para a outra em um momento de necessidade, formando uma relação de afeto pelo puro interior da pessoa sem pedir nada em troca, apenas a companhia...

é de fato

uma das mais belas.

e como eu te disse

não importa se amanhã paremos de nos falar

comigo eu te levarei para sempre

pois você formou o que eu sou hoje.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

CALOR.

Eu coleciono detalhes
Troco olhares
Transmito gestos

Pressiono qualidades
Não me contento com pouco
Quero sempre mais

Aproveito o silêncio
Encontro amparo em pequenos gestos
Gosto das más sensações

Esse calor tá queimando meu cérebro
Mas passar mal tá dentro dos meus planos
Prefiro assim

Será que esse litro de cerveja vai segurar a onda?
Não gosto da dúvida
E vocês sabem bem disso

Nenhuma droga me faz bem
Nenhum cigarro
Nenhuma bebida

Minha postura tá ótima
A imposição melhor ainda
É questão de dominância, sempre

E eu nunca perco uma chance
E você dá muita chance
E, nesse caso, como fica tudo?

Nunca fiz sentido
Eu só quero ficar sozinho
Mas a caneta insiste em deixar minha letra bonita

Vocês sabem bem disso
Que eu nunca vou ser preso
E sempre vou andar sem medo

Odeio mágoa
Nunca guardo
Não tenho tempo tampouco paciência

Sempre tive privilégio
Físico e mental
Por isso tive receio na fila do exército

Encho meu caderno de palavras inúteis
Mas é importante perceber isso
Assumo a culpa

Não assino nenhum B.O.
Não dou trabalho
Adoro papo reto

Me empolgo fácil demais
Recluo com mais facilidade ainda
Mas deixo marca

No fundo da minha alma eu quero só produzir
Música, texto e emoção é só o começo do currículo
O problema é exteriorizar

Percebo com facilidade o meu entorno
Agora me divirto mais aqui
Do que com mil amigos

Sei quando sou chato ou inconveniente
Não me iludo
Mas guardo pra mim todo esse sentimento

Enfim, achei aqui uma sombra e cansei de versinhos. Vamos pra caça.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Só mais um

Quando foi?

Que eu e você aprendemos a viver tão bem sozinhos?
Que perdemos toda a necessidade infantil de presenças constantes na nossa vida?
Fico feliz e triste olhando para a escuridão do meu quarto, pois recém agora que pisco o olho pra perceber tudo isso.

Foi só mais uma fase que não vimos passar.

Lembra quando cada detalhe importava como se estivéssemos em uma permanente crise de ansiedade? O cheirinho do tempero era saboreado pela sua mente, enquanto você caminhava pela cozinha, sentia o solavanco do braço da geladeira, e o frio da garrafinha de água na mão direita.
Agora a gente faz tudo no automático.

Foram só mais uns minutos que passaram.

Lembra quando a gente acordou juntinho, e você se levantou assustada pra ver o que era? No final era só a chuva, e passamos alguns minutos admirando o que a janela oferecia. Dias como esse eu nem preciso me esforçar pra lembrar dos detalhes.

Foi só mais um momento que eu deixei pra trás.

Ou quando a gente teve o nosso último dia naquela chácara, você toda bronzeada pedindo bis, não foi dificuldade nenhuma manter o olhar. E quando tava escurecendo você pediu pra continuar, mas eu disse não.

Foram só mais alguns momentos que eu escolhi não ter.

E hoje eu decidi seguir o que eu quero, os meus sonhos. A satisfação recente que eu andei procurando. Em fazer textos como esse, mas finalizá-los de uma maneira diferente.
Ah, e hoje? Hoje foi só mais um dia...


e você acabou de ler apenas mais um texto.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

ABAB do amor

A - Faixa de pedestre 
B - Evitando todo o mal
A - Num plano terrestre
B - No meio deste vendaval

A - Hoje faz dois meses
B - Que eu te vejo na minha cama
A - Eu te ouço tantas vezes 
B - Quero te sentir nesta semana

A - Do Saara às ilusões ao pó
B - Que te embrulhou na sexta-feira
A - Cinco anos após o amor neste toró
B - Por aqui se esconde a nossa vil cordilheira

A - Onde caçam as raposas
B - No corpo campestre?
A - Espaço onde há limites que nunca se repousam 
B - Por pouco olhou ao atravessar a faixa de pedestre

A - Está um dia tão lindo lá fora 
B - Coube a mim uma das últimas cinco peças 
A - Pois contigo já não preciso mais saber a hora
B - "A gente devia tomar um café uma hora dessas"

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A mesa virou e ela disse:

Sabe, seu cabelo vai caindo durante o dia. 
De manhã você deixa ele todo pra cima, como se estivesse saindo pra conquistar suspiros e cantadas por aí. 
De noite ele já está todo caído e você está com sua cara de cansado, mas sempre se esforça para sorrir para mim. Sempre me aninha no seu abraço e tenta quebrar meu silêncio. Sempre tenta me lembrar de que tudo vai melhorar e falta só mais um pouco para que eu consiga tudo o que eu quero.

Sabe, talvez seja você mesmo a pessoa que vai me tirar desse marasmo. Que vai fazer com que eu sinta que minha vida vale a pena e que basta eu querer para poder brilhar sendo eu mesma.

Eu perdoo sua imaturidade, seu chulé e suas inúmeras conversas sem sentido. Eu só quero que você diga bem baixinho que me ama. Me abrace toda manhã e faça carinhos no topo da minha cabeça. Que me dê beijos sinceros quando eu precisar. Que escorregue suas mãos enormes e bobas pelo meu vestido sempre que possível.

Eu só quero você. É pedir muito?

domingo, 7 de agosto de 2016

cantando alto e correndo numa rua do centro num sábado festivo
a madrugada usava uma película de cinema com ruídos imagéticos em câmera lenta
você me olhou enquanto segurava aquela garrafa de vinho barato que nós compramos e disse
olha aquela placa: "Fauna&Flora",
nossos passos estavam sincronizados e a gente brincava de falar outras línguas (talvez não as nossas, não naquela hora)
você encostou seu quadril em mim e dançávamos sem parar por um segundo sequer e mexíamos os braços como que tentando alcançar qualquer tipo de sentimento inalcançável tentando desenhar triângulos com nossos membros e ver o ar se rasgando nessa ciranda tão infantil e tão adulta tão embriagada tão errada tão proibida fazendo juras de alugar um trailer e transar por uma estrada que não conhecemos para um destino muito menos conhecido
hoje eu acordei e olhei pro lado e só encontrei vazio e um silêncio preenchido com batidas ritmadas de uma música qualquer

sexta-feira, 29 de julho de 2016

talvez qualquer um que leia isso não consiga encontrar toda a polidez que eu sempre tento ter na escolha de cada palavra de cada vírgula de cada ponto e vírgula de cada ponto de cada espaço de cada quebra de linha de página de backspace consertando linhas erradas de nada eu só quero escrever isso quase como um grito gutural da minha alma porque eu não consigo entender nada do que acontece nada nada nada nada que eu poderia repetir milhões de vezes pra que ecoasse em cada parede cômodo sala quarto banheiro cozinha dessa casa e pedir uma súplica a Deus que me desse algum sentido algum norte algum lugar pra andar alguma linha certa pra escrever algum canto confortável pra me recuperar sem que eu pudesse estragar alguma coisa além dessas linhas que eu decidi escrever sem voltar atrás em uma palavra mesmo que isso me ataque todos os nervos e perfeccionismos patéticos simplesmente por uma estética besta que eu tento mostrar pra todo mundo sendo que eu só sou essa bagunça infernal e tento manter tudo no lugar e eu não consigo mais eu sinto uma saudades enorme daquele beijo que você me deu e que eu pude simplesmente não ligar pra coisa alguma eu lembro das estrelas perdidas atrás de você como se fosse só nós e o universo e você sentada no meu colo e as nossas línguas falando aquela língua única que só nós dois entendíamos e nossas mãos nos despiam e logo víamos e estávamos fodendo como se aquela fosse nossa primeira transa ou a nossa última mas não era ou talvez fosse e eu nunca sabia e ia embora com um sentimento merda toda vez eu fiz a droga duma playlist cheia de música ruim e essa deveria ter seu nome mas hoje você não está aqui há um oceano entre nós todo corpo tem um pouco de prisão e acho que nós dois somos infinitos demais para acabarmos presos em mais uma prisão além de nossos corpos que obrigam nossas mentes nessa sensação horrível de viver em algo tão limitado para pararmos e repousarmos nossas cabeças e podermos falar nossas histórias tristes um para o outro numa meia-luz no quarto olhando para o outro tocando um o rosto do outro como dois amantes e rindo das bobeiras mas nós decidimos cada um correr e perseguir todo seu caminho porque nós dois queremos descobrir e viajar um mundo inteiro e navegar e nadar todos os oceanos inteiros e adentrar diversos universos diferentes e explorar cada estrela e facho possível de poeira estelar eu me assusto porque eu não consigo entender essas coisas e isso tudo me assusta eu percebo que o fluxo se torna cada vez mais forte quando eu fecho meus olhos e as palavras correm somente pelas minhas ideias sem ver a imagem na minha frente porque eu sei a direção de cada tecla e o caminho que cada dedo meu cada impulso elétrico e nervoso precisa correr pra encontrar a tecla certa para cada ideia minha e eu sei que dificilmente alguma palavra vá sair errada e eu escuto algum cantor inglês ou americano chato e triste cantando no meu ouvido alguma música triste e lembro que tudo é violento e tudo brilha e é fácil estarmos à véspera de um pedido de socorro perdido no tempo e eu conseguiria escrever e colecionar nomes de bandas e músicas todos aqui, mas decidi arriscar: tudo está perdido eu não sei como arriscar mais alguma linha letra palavra linha e começar um parágrafo nesse estilo rasgado e inconsciente mas eu tento seguir como se minha vida dependesse de cada um desses segundos tentando colocar cada demônio e monstro que vive dentro de mim pra fora através dos meus dedos e do meu corpo e da minha mente pra aliviar a tristeza a angústia a frustração que entopem corroem e corrompem como se cada veia e artéria que percorrem cada centímetro do meu corpo e irrigam todo lugar com essa dor e esse aperto e esse peso de existir se eu tento voltar onde tudo isso começou eu lembro de ver uma foto sua com um sorvete na mão e uma camisa xadrez e eu senti um encantamento estranho e ridículo e quando eu vi conversávamos e estávamos prestes a sair e ir ao cinema e eu coloquei uma camiseta do ramones porque eu sabia que você gostava e eu gostava e estávamos sentados nas poltronas e eu lembro até hoje a sensação das nossas mãos roçando como que envergonhadas e de leve tomando coragem até estarmos de mãos dadas e você beijou meu rosto e eu virei e te beijei e foi o pior beijo da minha vida mas céus como eu adorei aquilo e me senti perdidamente apaixonado e como se tudo tivesse sido varrido e tirado do seu lugar dentro de mim e conversávamos e nós íamos e víamos e assumíamos distâncias e muros e de repente quebrávamos tudo e nos aproximávamos e construíamos distâncias maiores e mais fortes e um dia eu decidi te perguntar se mais alguma coisa poderia acontecer entre a gente e eu lembro do seu não e a sensação de desespero e destruição interna e você se foi e ninguém nunca mais se viu ou se falou e você reapareceu quando eu tava em uma cama depois de passar por uma cirurgia e você me beijou e eu tentei te empurrar mas nós acabamos nos beijando e uma hora você olhou pra mim e disse que nós só não estávamos juntos porque eu não queria e até hoje eu lembro de você sentada na cadeira do meu quarto falando cada uma dessas palavras como se tivessem sido uns dos segundos mais longos de toda a minha vida e a meia-luz das luzes de cima do meu quarto e você se foi pra são paulo de novo e ficou só a sensação do inverno que fica em junho e eu ando em cada rua dessa cidade com medo de você aparecer porque eu sei que você sempre vem pra cá e lembro do barulho de panela de pressão e os vidros suados e sinto como se cada parede e janela estivesse me pressionando e meus ouvidos estivessem prestes a explodir e a textura horrível da japona do uniforme escolar na volta dos dias frios e você se foi

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Abraço / O dia em que o mendigo me quebrou /

Notei, nesses dias, que tenho abraço menos. Muito diferente dos abraços que costumava dar nas pessoas, hoje abraço com menos força. Com nojo, talvez. É bizarro.
Sempre fui muito acostumado a surpreender pessoas com abraços apertados e longos, o que até me rendeu um certo título... Mas e hoje? O que me ocorre?

Afastamento.

Me sinto meio sozinho. Não tenho mais vontade de tocar nas pessoas. Fico sem jeito, tímido. Faço piadas, mas não toco mais. Não consigo.
Eu, que já me incomodava horrores com cafunés, me pego negando carinhos. O que está acontecendo?

Solidão.

Achei que essas palavras só se encontravam em músicas bregas, mas aparentemente alguém decidiu bater em minha porta e trazer a amiguinha...

Mas vai ficar tudo bem.

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M: Ô, me arranja uma brasa aí.
E: Não tenho, velho.
M: Um cigarro então.
E: Também não tenho, cara. Não tenho nada.
M: Você não tem nada?
E: Não.
M: E quando foi que você perdeu tudo?

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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Com a palavra, João Basso: #somostodosgatos

Na vida selvagem, um gato em estado terminal entende que está mais vulnerável a predadores e busca um lugar para morrer em paz. Por conta disso, é comum o animal instintivamente se isolar em um cômodo pouco visitado, em baixo de móveis ou no quintal.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Podepá. / Hyperephania

Podepá que às vezes me dava uma loucura súbita e eu saia correndo pelo centro na maior loucura, só pra dar risada.
Hoje eu meio que finjo que existo. Acabei encontrando meu verdadeiro eu e acontece que esse verdadeiro eu é uma mentira. Eu só sirvo pra mentir e gerar desconforto nas pessoas. Infelizmente sempre foi assim e sempre vai ser.
Eu sinto inveja, eu sinto ódio, eu sinto dor. Sou arrogante; não ligo. Rasgo, destruo, machuco. Não sei lidar.
Mas existe um momento em que nós acabamos como personagens secundários da nossa própria vida.

--

Se pudesse voltar no passado, faria tudo novamente. Só faria mais intensamente. É tão fácil reclamar e não agir que a gente se acomoda e acaba não fazendo as coisas do jeito que deveria.
Talvez eu poderia ter corrido mais ou dançado mais. Ter lido e me informado só mais um pouquinho. Não ia matar. Ia só me ajudar.

--

Repito: Já notou como todos os textos tem o "eu, eu, eu"?

Pois bem: hyperephania.

Nunca houve palavra melhor para me descrever.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Limpando meu computador / Lidando com a manhã / Indo embora

Primeiro passo: saia de casa e arranje um emprego.
Não posso dizer que está fácil. Não, na realidade: tá foda. Não tem amor, não tem emprego, não tem empatia. Só tem doença e indiferença nessa avenida.

Segundo passo: "Siga-me, só não persiga-me."
Eu adoraria saber como mudar tudo. Como deixar todo mundo bem. Gostaria de absorver a dor de todos, se pudesse. Sempre fui assim.  Infelizmente não dá, então preciso seguir e ir recolhendo os cacos no caminho.

Terceiro passo: apague tudo o que puder. (e é aqui que a gente entende o Shion)
A vida não faz sentido, pai. É assim mesmo. Mas calma, ainda vai ter muito mais.



E a gente não merece nem um pouco disso, caras. Nem um pouquinho. Sinto muito por não poder cuidar de vocês. Queria tanto só deixar tudo bem.
Desculpa, vó. Você precisa de todos e eu não estou nem perto daí,
Desculpa, pai. Você precisa de ajuda e eu não consigo te alcançar.
Desculpa, mãe. Eu estou tão desligado da vida que cometo muitos erros bobos.
Desculpa, eu. Você sempre quis ser diferente e acabou sendo mais um brick in the wall.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

É isso.

– Mas e o que você acha?
– Sobre o quê?
– Sobre tudo.
– Não sei.
– Como não sabe?
– Apenas não sei. Não sou dono da verdade.
– Que inferno, você.
– Desculpa, É melhor eu ir.
– Não, fica.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Re: com amor,

(...) com o mesmo amor pelo qual palavras mancharam as paredes, tudo foi feito de memória. poderia tatear as paredes do corpo procurando runas antigas, mas o mapa se encontrava sempre absurdamente intangível: o ato de inocular a coisa viva em corpos celestes bagunçava o amor por toda a casa. a casa, permita-me dizer – nunca passou do deleite da psique na forma palpável de aromas inebriantes. arriscaria dizer que seria a tua mistura de cigarros, orgasmos e perfumes de estante. o brilho da intimidade que me faz reconhecer tua pele em braille mesmo depois da completa revitalização das células em sete anos. por pouco era pouco.

a longevidade era pouca. na maior parte do tempo, só deixaria as coisas ternas; ali, grampeadas em arquivo de sopro vital, de fracassos do coração. mas enganar quem? nem após um século de destroços eu entenderia o que aconteceu naquele outono.

 um dia, quem sabe,                                    
                 
(sempre com amor)
ao amor.

domingo, 8 de maio de 2016

fishbowls

Oi a você, peixe do aquário.
Sabe, incessantemente me permaneci na timidez que foi encará-lo.

Difícil imaginar o quão autômatos esses pequenos seres de barbatana 
têm vivido ao seu lado.
Se locomovem de uma parede à outra, em equilíbrio e constância, apenas esperando a próxima sessão de ração.

Talvez seja isso mesmo, não teremos tantas oportunidades quanto as que desejamos, as oportunidades que nos aparecem nos sonhos. Aquele sorriso magistral de felicidade genuína após um dia de boa convivência sem esperar nada em troca.

Ah, onde eu estava mesmo?
Sobre a timidez.
Certo.

O motivo de toda essa timidez é porque somos tão diferentes. Há uma barreira de vidro entre nós.
E eu não deixo de aprender um dia com você.
Ao invés de se agarrar no desespero e no pânico, reclamar da miserável vida que teve e têm tido até agora como muitos lá fora
Você achou felicidade e alegria em cada metro quadrado desse aquário decorativo.


Você me ensinou que true joy é encontrada em nós mesmos e nas limitações, como pois bem a parede de vidro que te impede de nadar. E sabe o que mais? Ela é feita...
''Já vivo nesse aquário desde que nasci, não é mesmo? Não tem mais nada aqui pra mim.''
...para localizar as grandiosidades que você tão voraz e impetuosamente insiste em ignorar, mesmo que sem querer.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Vê?

Não há nada tão pesado que eu possa escrever que pode deixar você, leitor, atordoado. Minhas palavras simplesmente não têm profundidade. São vazias. Não conseguem deixar marcas e cicatrizes na sua mente. Não passam dos seus olhos, na verdade. 
Não há profundidade em minhas palavras porque não há profundidade em mim. Sou oco. Toda a minha existência é um vazio. Eu, enquanto pessoa, sou só eu. E mesmo que deixe de ser eu, ainda assim serei eu.
Vê? Não há ponto algum em mim. E exatamente por não haver ponto em mim, posso ser facilmente descartado; assim como minhas palavras. 
Minhas palavras, assim como eu, precisam ver a luz do dia. Precisam de aceitação. Precisam de olhos que a vejam, para que então possam ser deixadas de lado. Dessa forma, mesmo que deixadas de lado, ao menos existiram.
Eu, ao menos, existi. E tive meus momentos (assim como elas...). 
Rapidamente serei deixado de lado (se já não fui) para que outro ocupe meu lugar.
Vê? Perceba a semelhança que tenho com minhas palavras. São tão sinceras mas tão desesperadas... Tão ingênuas e cheias de liberdade...
Mas perceba: elas têm um fim. 
Tem que haver um fim para tudo que existe no universo. 
E como as minhas próprias palavras, que jamais conseguirão se concluir de forma bonita, irei embora.