autor: Ayrtton Fonseca autor: Bárbara Tanaka autor: Giovana Anschau autor: João Basso
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terça-feira, 29 de março de 2016

Circular Centro 001

o motorista parou onde o mundo costuma sempre girar
(sem pensar duas vezes em imprimir as horas no pulso esquerdo)
– por ora era só fôlego pelo que ainda estaria por vir
por isso deixou a sombra descansar naquele mesmo ponto contínuo
por onde as folhas surrupiavam através dos calmos reflexos do homem laranja.
da brisa infindável, a mesma moça do agasalho amarelo se acomoda
no mesmo assento que porta a segunda fileira à direita
sem se incomodar em colocar a bolsa no chão, pois a sujeira sinestésica
estava apenas nas migalhas de olhares pútridos que projetam-se
nas tristes janelas trincadas, manchadas pelos mais expressos desamores.
na cidade feia, essa do céu feito de edifícios – o que restaria
senão os letreiros radioativos e a chuva que escorre saudade?

pontual. sete minutos em marcha à ré.
lá do horizonte de eventos se avistava o próximo maquinário
e o motorista dirige de volta para casa em tom solitário,
tocando o mesmo trajeto centrífugo de estação em estação
com as miudezas da mesma moça do agasalho amarelo.

das mesmas folhas varridas pelo tempo do homem laranja, comove-se o som:
circular, o maquinário estaciona; abrem-se as portas à espera da velha partida.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Mariposas no estômago

Queria escrever um poema que não
fosse mero nariz de cera, que as palavras
saíssem andando sozinhas, me dando as
costas e indo na sua direção.
Que direção é essa? Acho que eu esqueci
a minha bússola no seu paletó aquela manhã
e agora é tarde demais para buscar.
É tarde demais para me buscar. Eu ficaria
sozinha no ponto de ônibus, porque dessa
vez você não iria me colocar dentro do seu
bolso. Dessa vez eu não iria dormir quentinha
nem com todos os cobertores brancos e
meias felpudas. Mas é claro que eu não
dormiria de meias. Isso é bobagem.
Isso tudo é tanta bobagem que o bêbado
da sua escola disse que eu sorrio até demais.
Disse que queria ter tantos motivos assim
para sorrir e que sorrir é a coisa mais linda
que existe. Eu concordo, vulgarmente. Acho
que há motivos para sorrir em cada esquina
e a gente tem um pouco de medo de olhar.
Talvez de cara aquela prostituta não seja
bem um motivo pra sorrir, mas se você olhar
bem, talvez ela esteja procurando motivos
também. E talvez isso te faça sorrir.
É assim que eu tenho passado as últimas
épocas. Sorrir com você era tão constante
que por tempos eu não precisei procurar
cantinhos da cidade para sorrir. Estava
em absolutamente todo lugar. Acho que
era sorriso gratuito mas bem publicitário,
que nem a tiragem do Metro de manhã.
Agora sei lá, eu tô dentro do ônibus e ouço
o tilintar da campainha de uma bicicleta
e confundo com todos os sons que se
misturam dentro de mim. Eu lembro de
muitas coisas, de verdade. E na maior parte
do tempo eu não gosto de lembrar e de
repente me desmanchar em um sorriso. Assim
fica difícil tentar procurar em outros lugares.
Mas no final, era só isso que eu queria dizer.
Talvez a gente ainda se esbarre em um sorriso
por aí, mas não quero te procurar. Ainda tenho
uma cidade inteira para explorar...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Caffè latte

I.
da última vez nós procuramos abrigo debaixo do comércio fechado.
o senhor da loja de conveniências havia nos expulsado
de novo, mesmo com o mundo caindo lá fora,
sem compaixão alguma ao ver dois jovens trocando carícias
no finzinho do corredor.
– ah, que mal tem?
– aqui não. ele vai ver.
e viu.

II.
corremos de todos os males fantasmagóricos
para atravessar poças e
contornar a sombra dos prédios.
você não me pagou um café, é claro,
mas eu fui feliz ao pegar a sua mão
mesmo com o cheiro de homicídio e pólvora
pairando a cidade.

(e do pouco de consolo que restou,
eu já sabia,
o amor era sexualmente transmissível.)

de resto era infinitude, era sorriso exausto.
– mesmo assim?
– é que isso sempre acaba matando a gente.

III.
hoje você abriu o guarda-chuva.
ainda segurou a minha mão, sempre mais gelada que a sua
mas sempre cúmplice daquilo que queria ser visto.
– sabia que cheiro de chuva é bactéria?
– é?
– é. acho que tô ficando doente. é melhor voltarmos pra casa, viu...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Mulheres

"até amanhã," ela diria 
segurando um copo de água com gás,
gás hélio que penetrava os pulmões
em um grito ímpeto de prazer lúgubre
ela se arrastava aos meus pés.

"quem diria,
você aqui de novo"
em um sorriso um pouco maldoso
com um pouco mais de sede do que ontem
ela olhava torto, lambia os beiços
estralava os dedos e me puxava pelo pescoço.

"por que você não quis
ficar comigo?"
hoje não dá, querida, eu diria
virei as costas e dei de cara com o samba
suando frio, um pouco tonto
procurando pela saída de emergência.

"mas hoje você não vai sair daqui,"
e me empurrou na parede
encheu a minha cara suja de beijos
mordidas de uma serpente peçonhenta
não passam de gangrenas violentas
e eu caio morto pedindo um pouco de soro.

"podemos repetir essa noite
qualquer dia desses,"
ah, mas é claro que sim
                                     ( tudo o que você quiser e mais um pouco )

e do pó eu venho como um homem só,
amante dos ensaios de Epicuro,
filho do fogo e das más sentenças,
Diabo que se curva à mulher que me fez
tão só que desfez esse nó.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

desassossego, porque estamos sendo dizimados

naquela
linda avenida
se vê
uma linda
singela
como o lado
do asfalto

procura-se
a lágrima
perdida
naquela
infinita
cordilheira
sem salto

escorre
o bueiro
no palco
o sangue
dos vermes
que habitam
o asfalto

impunes
tremores
calados
acolhem
a noite
de olhos
fechados.

domingo, 25 de maio de 2014

elegia ao brasiliense morto

fotografia por Giovana Anschau.

você rola
os olhos
porque até
os modernistas
estão cansados
das estruturas metálicas,
do tumulto dos sólidos,
da natureza morta.

eu te olho
lá de cima
porque você é tudo
o que eu sempre quis ter,
a refração eu observo
num reflexo fantasma
e eu não atravesso
parede alguma,
nem ferro nem concreto,
nem vidro
nem cinética.

mesmo assim
os vultos passam
te arrastam pra longe
e você ainda olha
do outro lado
e toca as paredes
procurando o calor
que eu, aqui do lado,
insisti em esfriar.

Azul cobalto e arranha-céu

Mentalize a coisa mais triste que você conseguir.

O que você pensou? Conta pra mim. Eu quero saber se você pensou no seu mundo desabando, na sua mãe chorando ou em ver seu cachorro morrer aos seus braços. Se você pensou no cair de pétalas de uma gardênia, se pensou em comer pão velho em vez de crostini de quatro queijos. Pensou em ditaduras comunistas? Ou nos que são amarrados em postes? Pensou em pesadelos? Mensagens subliminares? Pensou no futuro?

Shhh, me conta. Por favor. Eu não conto pra ninguém, eu juro. Juro pelo que você quiser! Sim. Pode confiar. Isso fica entre nós, tá bem? Guardado a sete chaves, bem aqui.

E como você está? Está tarde e eu estou triste, mas as coisas poderiam estar muito piores. Você sabe disso. Acabou de me contar.

Talvez nós sejamos apenas estranhos se movendo juntos em alguma direção. Pra onde você olha quando sente essas coisas? Eu olho para o céu, mas os prédios às vezes estão tapando a minha visão. É meio engraçado, sabe? Sentir isso tudo e ainda querer procurar pelas cores bonitas.

Mas nós somos aquelas crianças que diziam que mudariam o mundo, não é? E agora?

terça-feira, 6 de maio de 2014

Jusante ou montante?


Latitude norte, extremo oeste em longitude. Essas poderiam ser as coordenadas quanto à minha posição sobre a sala de aula, que era dispersamente dirigida por um professor que, em minha mais carinhosa ponderação, se assemelhava a um patinho. Eu observava seu andar apressado enquanto ouvia sua análise apaixonada de mapas topográficos. Não mais do que isso.

Tudo bem, se eu tivesse mergulhado inteiramente dentro da aula, eu não teria tentado  romantizar— fracassadamente — a melancolia matinal em versos chulos sobre o sentido para onde os rios correm. Saiu algo como"um barquinho de papel/ era übermensch solitário/ nas marés violentas/ de um córrego calado", e então eu suspirei e voltei a me debruçar sobre a carteira. Minha atenção também voltou-se inteiramente às palavras do professor-patinho, mas a atmosfera pesada da manhã ainda fazia todos bocejarem de sono, o que se mesclava ao odor de plástico queimado que cobria a cidade desde muito cedo. Eu não enxergava mais o contorno dos prédios ao fundo, e por um momento a beleza da poluição urbana e da inversão térmica me tirou um sorriso tímido.

E sucessivamente, o tempo ia se arrastando. Me despedi do sublime amigo a quem admiro tanto, que ousou soltar "se um dia eu abrir uma escola anarquista, gostaria de nomeá-la como mentora", e assim pude sair da sala sorrindo mais uma vez.

Talvez eu só tenha um pouco de medo de tudo. Ou talvez eu só tenha acordado em mais um daqueles dias em que nada parece verdadeiramente palpável (tenho certeza de que sabe do que estou falando). Só sei que respirei levemente fundo, saquei minha filmadora da mochila, e adivinhe — consegui capturar perfeitamente um pássaro parado em cima de um poste de luz, que cerca de dez segundos depois, levantou voo. Me pergunto onde ele está agora. Nesses momentos é que as coisas mais levianas da vida conseguem te tocar lá dentro, preenchendo cada vaso sanguíneo que te deixa meio vivo.

Ora pois, tudo em nome da arte. Enquanto a Terra rotacionava, desfoquei todas as luzes, fiz silêncio para todos os sons, observei de seno, cosseno e tangente, toquei até o que era proibido e procurei sentir tudo o que nenhuma outra pessoa havia sentido antes. Às vezes você acorda se sentindo alguma coisa.

Às vezes você acorda se sentindo astrônomo, místico, fotógrafo, Ernest Cline. Às vezes você acorda poeta (não, meu bem, hoje não). Ou às vezes você acorda velejante, querendo estar em um barquinho de papel, independente se irá seguir jusante ou montante. E a direção realmente não importa, não é mesmo?

sexta-feira, 2 de maio de 2014

raimundos

ô, raimundo, me diz teu nome
antes de passar aqui
e acolá,
dá voltas por todo o mundo
com ginsberg nas mãos
e cummings no coração,
vestindo uma calça cáqui
e um cachecol de segunda mão,
você finge que sorri
e é como um amor semovente
que dentre sombras e vermes
não cansa de ser sempiterno,
na pior das taquicardias
eu espero.

                            [você passou

                                         olhou
                                            de novo

            e eu fingi que não vi.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

solitude

o sol respinga na janela e atravessa a ti, olho pra fora e você já não mais me enxerga, o grito agudo, eu desvio do feixe e a morte do primo é um projétil venoso a oitenta e três metros por minuto. é o rastro descompassado do caminho mais breve, é o sangue que corre, é a luta pela derrota. é a desventura porque eu nunca soube vencer, o escárnio é viril e eu sou arremessada aos três tempos no ringue, não dá tempo para um gole d'água, quiçá prum suspiro. isso é só o início? ou o início é findo? eu vejo o trem da solitude lá do outro lado do quarteirão, e o fantasma já não mais me alcança, não mais, não, pois eu corro, corro contigo, corro comigo, corro convosco. passa pela avenida o sol-em-ti, se eu já não fosse a colisão entre os dois motores que anulam a minha partida. por ora, apaguem as luzes.