terça-feira, 29 de março de 2016
Circular Centro 001
(sem pensar duas vezes em imprimir as horas no pulso esquerdo)
– por ora era só fôlego pelo que ainda estaria por vir
por isso deixou a sombra descansar naquele mesmo ponto contínuo
por onde as folhas surrupiavam através dos calmos reflexos do homem laranja.
da brisa infindável, a mesma moça do agasalho amarelo se acomoda
no mesmo assento que porta a segunda fileira à direita
sem se incomodar em colocar a bolsa no chão, pois a sujeira sinestésica
estava apenas nas migalhas de olhares pútridos que projetam-se
nas tristes janelas trincadas, manchadas pelos mais expressos desamores.
na cidade feia, essa do céu feito de edifícios – o que restaria
senão os letreiros radioativos e a chuva que escorre saudade?
pontual. sete minutos em marcha à ré.
lá do horizonte de eventos se avistava o próximo maquinário
e o motorista dirige de volta para casa em tom solitário,
tocando o mesmo trajeto centrífugo de estação em estação
com as miudezas da mesma moça do agasalho amarelo.
das mesmas folhas varridas pelo tempo do homem laranja, comove-se o som:
circular, o maquinário estaciona; abrem-se as portas à espera da velha partida.
quarta-feira, 18 de março de 2015
Mariposas no estômago
fosse mero nariz de cera, que as palavras
saíssem andando sozinhas, me dando as
costas e indo na sua direção.
Que direção é essa? Acho que eu esqueci
a minha bússola no seu paletó aquela manhã
e agora é tarde demais para buscar.
É tarde demais para me buscar. Eu ficaria
sozinha no ponto de ônibus, porque dessa
vez você não iria me colocar dentro do seu
bolso. Dessa vez eu não iria dormir quentinha
nem com todos os cobertores brancos e
meias felpudas. Mas é claro que eu não
dormiria de meias. Isso é bobagem.
Isso tudo é tanta bobagem que o bêbado
da sua escola disse que eu sorrio até demais.
Disse que queria ter tantos motivos assim
para sorrir e que sorrir é a coisa mais linda
que existe. Eu concordo, vulgarmente. Acho
que há motivos para sorrir em cada esquina
e a gente tem um pouco de medo de olhar.
Talvez de cara aquela prostituta não seja
bem um motivo pra sorrir, mas se você olhar
bem, talvez ela esteja procurando motivos
também. E talvez isso te faça sorrir.
É assim que eu tenho passado as últimas
épocas. Sorrir com você era tão constante
que por tempos eu não precisei procurar
cantinhos da cidade para sorrir. Estava
em absolutamente todo lugar. Acho que
era sorriso gratuito mas bem publicitário,
que nem a tiragem do Metro de manhã.
Agora sei lá, eu tô dentro do ônibus e ouço
o tilintar da campainha de uma bicicleta
e confundo com todos os sons que se
misturam dentro de mim. Eu lembro de
muitas coisas, de verdade. E na maior parte
do tempo eu não gosto de lembrar e de
repente me desmanchar em um sorriso. Assim
fica difícil tentar procurar em outros lugares.
Mas no final, era só isso que eu queria dizer.
Talvez a gente ainda se esbarre em um sorriso
por aí, mas não quero te procurar. Ainda tenho
uma cidade inteira para explorar...
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Caffè latte
da última vez nós procuramos abrigo debaixo do comércio fechado.
o senhor da loja de conveniências havia nos expulsado
de novo, mesmo com o mundo caindo lá fora,
sem compaixão alguma ao ver dois jovens trocando carícias
no finzinho do corredor.
– ah, que mal tem?
– aqui não. ele vai ver.
e viu.
II.
corremos de todos os males fantasmagóricos
para atravessar poças e
contornar a sombra dos prédios.
você não me pagou um café, é claro,
mas eu fui feliz ao pegar a sua mão
mesmo com o cheiro de homicídio e pólvora
pairando a cidade.
(e do pouco de consolo que restou,
eu já sabia,
o amor era sexualmente transmissível.)
de resto era infinitude, era sorriso exausto.
– mesmo assim?
– é que isso sempre acaba matando a gente.
III.
hoje você abriu o guarda-chuva.
ainda segurou a minha mão, sempre mais gelada que a sua
mas sempre cúmplice daquilo que queria ser visto.
– sabia que cheiro de chuva é bactéria?
– é?
– é. acho que tô ficando doente. é melhor voltarmos pra casa, viu...
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
Mulheres
"até amanhã," ela diria
segurando um copo de água com gás,
gás hélio que penetrava os pulmões
em um grito ímpeto de prazer lúgubre
ela se arrastava aos meus pés.
"quem diria,
você aqui de novo"
em um sorriso um pouco maldoso
com um pouco mais de sede do que ontem
ela olhava torto, lambia os beiços
estralava os dedos e me puxava pelo pescoço.
"por que você não quis
ficar comigo?"
hoje não dá, querida, eu diria
virei as costas e dei de cara com o samba
suando frio, um pouco tonto
procurando pela saída de emergência.
"mas hoje você não vai sair daqui,"
e me empurrou na parede
encheu a minha cara suja de beijos
mordidas de uma serpente peçonhenta
não passam de gangrenas violentas
e eu caio morto pedindo um pouco de soro.
"podemos repetir essa noite
qualquer dia desses,"
ah, mas é claro que sim
( tudo o que você quiser e mais um pouco )
e do pó eu venho como um homem só,
amante dos ensaios de Epicuro,
filho do fogo e das más sentenças,
Diabo que se curva à mulher que me fez
tão só que desfez esse nó.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
desassossego, porque estamos sendo dizimados
linda avenida
se vê
uma linda
singela
como o lado
do asfalto
procura-se
a lágrima
perdida
naquela
infinita
cordilheira
sem salto
escorre
o bueiro
no palco
o sangue
dos vermes
que habitam
o asfalto
impunes
tremores
calados
acolhem
a noite
domingo, 25 de maio de 2014
elegia ao brasiliense morto
Azul cobalto e arranha-céu
terça-feira, 6 de maio de 2014
Jusante ou montante?

sexta-feira, 2 de maio de 2014
raimundos
antes de passar aqui
e acolá,
dá voltas por todo o mundo
com ginsberg nas mãos
e cummings no coração,
vestindo uma calça cáqui
e um cachecol de segunda mão,
você finge que sorri
e é como um amor semovente
que dentre sombras e vermes
não cansa de ser sempiterno,
na pior das taquicardias
eu espero.
[você passou
olhou
de novo
e eu fingi que não vi.




