segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Descrição.

Saindo, percebeu o velho. O velho apontou para ele e disse, com carisma tradicional:
— Vai se formar em quê?
— Serei um ótimo advogado, se Deus quiser – adorava usar expressões como "Graças a Deus" e "Se Deus quiser" com pessoas mais velhas. Passava a impressão de ser um bom moço, dedicado e tudo o mais. 
O velho pareceu impressionado e abriu um belo sorriso. 
— Mas olha só! Que Deus te abençoe, então! 
— Mas ora... Amém! – riu. Não queria ser advogado e nem acreditava que Deus poderia querer algo do gênero. 
Saiu pelo portão. 
Depois de viajar por 3 horas no ônibus, notou a garota. Tinha cabelos castanho-escuro, com franja e amarrado. A camiseta larga e caída ombro-sim-ombro-não cor cinza combinava com sua pele clara. Tinha mãos pequenas e estranhamente não tão finas. Nos dedos, um anel grande em formato de asas. Usava um short jeans curto, exibindo as pernas brancas e delicadas. No pés, all star cinza de cano médio. 
Parecia interessante. Interessante até demais. A encarava na esperança que ela olhasse para ele também. Aconteceu. Olhos castanhos bem escuros e uma boca extremamente delicada e rosada. Dessas garotas que não usam tanta maquiagem. Ofereceu um sorriso, que não foi correspondido. A garota misteriosa se virou novamente à janela.
... Mas é engraçado. Você corta os cogumelos em partes iguais, mergulha-os em manteiga quente, frita até ficarem bem escuros e come com prazer. Depois bota tudo pra fora; por cima ou por baixo. Ter o prazer em comer soa errado, agora; mas essa é a coisa que gostamos de fazer: inutilidades. 
Criamos a necessidade de comer mais para criarmos a necessidade de nos exercitarmos para poder queimar a gordura que nós colocamos no nosso corpo, por puro prazer. Soa justo. 


Desci no ponto e esperei que ela descesse também. Quem sabe poderia puxar algum assunto ou algo assim. "Como vai?" "Já não te conheço de algum lugar?" Ou qualquer coisa. Não sei muito como fazer, mas poderia. 
Não fiz. Ela não desceu. 
... Às vezes você está levando uma torta para uma casa desconhecida, esperando que a tarde não valha a pena. Acha que tudo vai dar errado e que não vai gostar do seu final de domingo; mas a mesa vira. Você descobre que não importa onde estiver, se houver boa conversa e bons amigos (e uma boa torta), tudo vai dar certo. O dia depende de você. 

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