segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Travessia

Sinto o peso confortável da minha mochila em minhas costas.
Mesmo sem estar atrasado, apresso o passo pelo simples fato de apressar o passo.
Subo a escada de três degraus como se fosse um só.
Pergunto o clássico "beleza?" para o motorista e ele sorri para mim.
Encosto meu cartão na máquina e escuto um "pi" como resposta negativa. Tento uma, duas, até funcionar. Sinto o embaraço de travar a fila inexistente.
Passo pela catraca.
Vejo todos os tipos de pessoas amontoadas vivendo - ou saindo da vida, ou até, ainda, voltando para a vida delas.
Vejo pessoas lendo, cada uma imersa em um universo diferente, conseguindo fugir de uma realidade para cair em outra. Realidade essa que, dessa vez, também é real.
Pessoas com fones fazendo o esperado: ouvindo o inesperado. O garoto que usa óculos e uma mochila carteiro está ouvindo rap e se sentindo vivo. O marmanjo que tem o cabelo grande e uma camiseta de uma dessas bandas de metal está ouvindo bossa nova. A menina ruiva já, em compensação, é um mistério - ninguém sabe dizer o que ela ouve, e se sabe, ela estará ouvindo outra coisa.
Tem um cara um bocado engraçado ali no canto. Três lugares estão vagos e mesmo assim ele fica de pé. Ele não para de bater os pés como se estivesse tocando bateria e tamborila os dedos nos lugares para se segurar do ônibus.
Um grupo de amigos conversa no fundo do ônibus. Falam bobagens e mostram os dentes em sorrisos sinceros, com semblantes cansados.
E no meio de tanto mistério, tristeza, alegria, e dessa salada de frutas sentimental, eu não sei onde sentar.

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