quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Ensaio sobre o sonambulismo

I. hoje de manhã eu abri a janela e assisti à dança das pequenas ondulações feitas de pó quando cobertas pelos feixes de sol. nuas, livres, translúcidas – como se orbitassem o quarto num riso tímido e lúdico. o tempo, contudo, é cretino: ali dentro fazia frio e o tique-taque do relógio se mostrava ensurdecedor. era tudo muito breve, mas oportuno. dali a pouco as nuvens se abraçariam e cobririam o céu em um grande manto; e num fechar de olhos, o pó também havia de se esconder.

II. de nosso último beijo só restaram os amores findos: daqueles que se dizem lindos, mas que caem no vão dos prédios tortos, ressignificando os tilintares do eco em queda livre. eram os olhos e o toque de ametista. o perfume era único e inserido na ordem natural do universo; o medo era que caísse no esquecimento, no ritmo de um filme noir. oblivion. n. the condition or quality of being completely forgotten.

III. a decomposição ocorreu em uma noite de sábado que explodia fogos de artifício e cantorias nostálgicas. era tudo muito ruim. teatro da memória, elevação astral e percepções hedonistas corrompidas pelo ato. poesia concreta e parnasiana. nunca me trouxe as cores quentes de uma casa pré-fabricada: mas era o vórtice tácito das piores paixões. por ontem, morremos. foi um míssil altamente calculado. física quântica. de nós, só resta o mais nobre dos silêncios – esse que fecha olhos e nos permite descansar.

2 comentários:

  1. um míssil, assassino e calculado, realmente. por situações e gerações de riso, novamente. nem lembro mais de últimos beijos...

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