terça-feira, 5 de abril de 2016

crônica em 180°

"Um mês havia passado e eu me sentia há uma eternidade no mar. O dia da partida parecia algo tão distante no passado como a data do meu nascimento. Estava profundamente bem, como se a vida tivesse sido sempre assim, alternando, dia após dia, paisagens violentas com cenas de calma, minutos de preocupação com momentos de muita alegria."

a cadeira era desconfortável (no seco, como todas as outras) e a sensação de ver cena por cena, plano por plano, inebriante. as pausas (diversas) agoniavam, mas faziam sentido. no fundo eu só queria reclamar e questionar o quanto eu achava irritante as coisas que eu mesmo faço.

a cena do sertão exposta por um retroprojetor em uma tela. a areia. os animais andando... se eu desviasse o olhar, poderia ver um prédio espelhado, que refletia uma luz diferente, misturada com outras imagens. aquelas imagens que você vê de vez em quando e quer paralisar o momento, as nuvens, a temperatura, tudo, e poder mostrar para todo mundo? e que talvez, só seja dado a você ver?

não é possível ver aquilo de novo. que memória eu posso ter? quem também viu? eu posso chegar lá amanhã, no mesmo horário, e ter esquecido detalhes minúsculos que não estão iguais. Algumas coisas são assustadoras.

o convite era (até onde eu ouvi, e bem, lembro) imaginar uma linha cruzando o meio da sala e a ideia das câmeras e luzes e a história dos 180°. Juro que eu entendi a ideia, eu só não quero mostrar que eu sei ela. Eu só precisava de um título.

o peão caindo das pequeninas mãos
o grito do menino "mãe! mãe!"
a sensação estranha de inexplicação
que memória será que aquela criança vai ter?
deve ser somente um filme estranho e experimental que ela só pode ver uma parte da metade e não chega a ver o fim que vai visitar ela toda vez antes de dormir.
os fogos de artifícios, os gritos, o desespero.

girar aquele peão nunca mais vai ser alegre quanto era antes. nunca mais.

"E ir em frente. Então tudo se tornava mais fácil. Os problemas encontravam solução. 'Decidir sem medo de errar', escrevi a página 84 do diário e apontei na direção de Salvador. Estava decidido e certo."

em cada uma das páginas diárias escritas estão guardadas muitas coisas. de vez em quando a caneta avança decidida, de vez em quando vacilante. não tem um padrão. há cartas para todos os gostos. 'o que será que vive nas ideias desses amantes?' devem se perguntar as linhas.

imagino que se cada uma dessas páginas criassem asas e saíssem voando por aí, ao encontro de cada destinatário e pousasse no colo de cada um, a confusão que seria. mas, no fundo, eu daria risada, e seria libertador. talvez ensaiasse suspiros e abririam sorrisos, algumas.
por sorte (ou azar) que o remetente é impossível. Mas eu só não queria mesmo era perder a piada, agora.

"Na quietude daquela noite, a última, ancorado no infinito sossego da Praia da Espera, sonhando com os olhos abertos e ouvindo outros barcos que também dormiam, descobri que a maior felicidade que existe é a silenciosa certeza de que vale a pena viver.
E dormi. A 'lâmpada' ficou acesa."

a lembrança das risadas infantis e a alegria típica ecoavam na minha cabeça.
a imagem da flor branca que aquela criança deixou no meu colo vai sempre me visitar.

a sensação de imaginar o barbante do peão saindo e ele girando por aí, se divertindo...

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